O início da saga Imix
Por Alexandre Costa Kawakubo (2015-10-07)
A partir de seu próprio ser, Deus criou todas as galáxias, e dentre os astros de cada sistema solar, planetas com todos os recursos para o desenvolvimento da vida, em cada um destes incontáveis oásis, colocou bilhões de almas totalmente amparadas para a sua evolução.
De um destes planetas surgiu Achernar, uma alma do tipo Serafim, um filho bem-sucedido que vagava pelo universo para contemplar as maravilhas criadas por seu pai. Em sua última viagem chegou a constelação chamada Erídano e lá encontrou uma pequena estrela que abrigava um desconhecido sistema planetário, não haviam outras divindades vivendo lá, pois somente um dos seus nove planetas era habitado.
Neste mundo primitivo, Achernar encontrou almas jovens e presas a mortalidade, nunca tinha visto um local onde não haviam divindades. A simplicidade e os dramas vividos por aquelas criaturas de vida tão curta conquistaram seu amor rapidamente.
Maior que a felicidade de apreciar a alegria destes seres era a decepção de ver tanta injustiça e sofrimento criados por eles mesmos, e nessa profunda agonia, Achernar abriu mão da posição mais elevada de uma divindade e se tornou Principado, podendo assim guiar a humanidade deste planeta que amava. Passados poucos anos ele começou a ser venerado por aquele povo como seu Deus.
Achernar iniciou sua nova vida como deus patrono ao ensinar uma pequena nação sobre a criação do universo e as leis divinas do bem e do mal. Rapidamente uma nova sociedade surgiu, uma crescente organização pacífica e criativa. Logo desenvolveram o calendário, a agricultura, a matemática, o direito, a logística, as artes e a astronomia. O novo deus nomeou os nove planetas do sistema solar: Muluk, Lamat, Maniki, Kimi, Kichan, Kan, Akibal, Iki e sua nova morada Imix. Nesta mesma época o amor de Achernar por seu povo era tão grande que deixou de ser um querubim, rebaixando-se novamente para o status divino de Arcanjo, mas não importava sua aparência, a humanidade sempre o chamava de Deus.
No ano 985 e.A. (era Achernar) a ordem mundial de Imix era total e perfeita, desta humanidade o novo Deus conseguiu fazer muitas almas errantes saírem do ciclo da mortalidade e se tornarem divindades, das quais a maioria fundou novos países nos outros oito planetas.
Por mais de um milênio o Sistema Planetário Achernar prosperou cultural e tecnologicamente, mas uma nova ordem social ameaçava o desenvolvimento por determinar dois tipos de pessoas, os mortais que não conseguiam sair de Imix que compunham a Humanidade, e as divindades que vagam entre os nove planetas compunham a Paradesha. A Humanidade, frustrada por um sentimento de inferioridade perante a Paradesha, tornou a divisão cultural inevitável ao criar um preconceito nítido contra as divindades e colocar o conhecimento tecnológico a frente do divino.
Achenar via o início de uma catástrofe nascer a sua volta, mortais expulsando divindades de seu meio e iniciando conflitos violentos, a tecnologia sendo desenvolvida para segregar com a desculpa de que servia como proteção. A cultura contra a Paradesha crescia impulsionada por pregações de que Imix era o pior dos nove planetas e que nos outros haviam jardins maravilhosos que foram chamados de Paraísos. O termo “Paraíso no Céu” ficou famoso assim como a ideia de que as divindades impediam a evolução dos mortais para não compartilhar o Paraíso como Imix era compartilhado entre Humanos e Paradeshianos.
No ano 2871 e.A., graças a pregadores radicais que defendiam a opinião de que só era possível sair da mortalidade se as divindades parassem de interferir em suas vidas, os conflitos se intensificaram. Sabendo que os poderes divinos não são visíveis, os mortais defendiam o ideal de que toda a Humanidade deveria viver em Imix e toda a Paradesha deveria viver no Paraíso. Não demorou até intimarem seu Deus a decretar leis como a segregação definitiva dos paradeshianos. Achernar se negou a fazer isso, transformando um conflito de ideais em um conflito armado. A Humanidade se juntava para obrigar as divindades a abandonar Imix, por iniciativa própria ou pela aniquilação.
A resposta aos anos de ameaça ocorreu no ano de 2904 e.A. e foi devastadora. As divindades mais poderosas de Imix, cientes de seus direitos e contra a vontade de Achernar, destruíram todos as grandes construções que poderiam servir de base militar, fábrica e centro de pregação contra a Paradesha. Neste ataque surpresa muitos mortais pereceram e algumas divindades foram gravemente incapacitadas, neste dia todos puderam ouvir os lamentos de Deus.
Com medo das divindades, muitos humanos criaram uma cultura mentirosa de idolatria e veneração das divindades como seres superiores. Por outro lado, os humanos extremitas remanescentes ficaram mais idealistas, agora tinham a certeza que as divindades interferiam em seu processo evolutivo e acreditavam em seu potencial de eliminá-las. Ocultos, eles criaram a seita “Portadores da Luz”, que tinha como objetivo iluminar os olhos de Deus para afastar a escuridão provocada pela influência das divindades pagãs. Em segredo os Luzifas, ou Portadores da Luz, desenvolveram o ocultismo e um novo poder belico derivado dele.
Por quatro décadas Achernar voltou a acreditar que seu trabalho continuava certo. Seus maiores problemas eram os grupos pagãos que adoravam divindades locais como filhos consanguíneos de Deus; o aumento do temor as divindades pelos humanos, as instalações luzifas; e por último Ehr, o humano que conseguia derrotar divindades e que se auto proclamou escolhido por Deus e líder dos Portadores da Luz.
Na década seguinte a humanidade tinha claramente se divido em três principais tipos de crentes:
Os Paradeshas, que seguiam os ensinamentos de Deus para virarem divindades;
Os Pagãos, que cultuavam e serviam divindades por acreditar que elas eram filhas consanguíneas de Deus;
E os Luzifas, que acreditavam que as divindades pagãs, através de feitiçaria, os impediam de se tornarem divindades e ir para o paraíso.
Apesar dos conflitos, as três culturas sobreviveram sobre o governo de Achenar sem um guerra declarada, poucas divindades restavam em Imix e a décadas não se via visitantes dos outros planetas e nem suas mensagens vindas dos Oito Paraísos.
Mesmo ocultos, os Portadores da Luz radicais se tornaram poderosos graças a uma complexa e rígida administração que faziam suas remotas e inúmeras bases manterem uma perfeita comunicação e organização. Seu líder, o famoso Luzifa Ehr, manteve a estrutura unida pelo fanatismo e recursos das igrejas luzifas populares, após sua morte o cargo de líder dos luzifas recebeu o nome de Luzifehr, que se tornou sinônimo de “aquele que traz a luz”. No ano de 2979 e.A. foi nomeado o terceiro Luzifehr chamado Absin, um jovem genio, formado em diversas doutrinas como teologia, ocultismo, história, engenharia, química e programação.
Ao longo dos anos, Luzifehr Absin, revolucionou o mundo tecnologicamente quando criou o IGI “Ignição Auro Cinética”, um equipamento que através da combinação de um conhecimento rúnico ancestral e materiais quimicamente trabalhados, conseguia absorver a energia da alma humana e transformar em energia cinética.
Antes de morrer foragido em uma base luzifa secreta, Luzifehr Absin terminou e divulgou para o mundo sua última invenção, o profano RA ou “Reator de Aura”. O RA era uma esfera capaz de aprisionar e manter a alma humana ou divina em seu interior e, combinado com o IGI, formava uma fonte de energia eterna que ficou conhecida como Raigi. Em suas meditações Achernar soube da conclusão desse terrível invento que infligia diretamente a 2ª lei divina, que consiste em “não violar o ciclo divino da alma de morte e renascimento”, mas quando encontrou o laboratório de Absin ele estava morto e já havia enviado seu projeto a todo o mundo pela rede mundial de computadores. No ano de 3026 e.A. mais uma vez a tecnologia conspirava contra Deus.
Ao saber da produção em massa do Raigi em diversas partes do mundo, Achernar entrou em desespero e ordenou a todas as divindades de Imix a destruição de tudo relacionado a esse projeto. Durante dez anos a guerra mundial se instalou, as divindades de Imix e seus seguidores acabaram com quase todas as estruturas luzifas nas principais cidades mundiais, ainda haviam conflitos em bases militares que eram bem armadas e já possuíam tecnologia bélica atrelada ao Raigi, muitas pessoas se juntaram aos Portadores da Luz acreditando que Deus havia sido iludido pelas divindades pagãs que destruíam seus lares, milhares de humanos morreram e centenas de divindades foram aprisionadas em RAs.
Durante a guerra os termos luzifa e Luzifehr foram gradualmente substituídos por lucífera e Lúcifer. Ao final do ano de 3037 e.A. o mundo voltava a ser pacífico e todos esperavam a queda das últimas três nações lucíferas que possuíam poderosos Canhões de Raigi capazes de ferir até a Achernar.
Após participar da guerra, o deus que sempre colocou o livre arbítrio a frente dos outros direitos, proibia o culto a filosofia dos Portadores da Luz e punia a construção ou preservação de qualquer dispositivo IGI ou RA. Neste período, sem nem um aviso, um exército composto pelas sete mil divindades mais poderosas dos planetas Iki, Akibal e Kan desceram dos céus ao encontro de seu mestre.
A divindade que governava Iki se chamava Ômega, o primeiro mortal de Imix a virar uma divindade. Tinha grande influência sobre a Paradesha e trazia ao seu mestre Archenar a notícia que todas as divindades que formavam o Conselho Paradeshiano entraram no consenso de que a humanidade já havia chego em seu ápice de aproveitamento e que de agora em diante só poderia trazer ruína para si própria e futuramente aos outros planetas através de sua tecnologia, decretando para seu mentor que deveria ser aniquilada.
Achernar, que confiava cegamente em seus discípulos e não comparecia durante séculos ao Conselho, ficou decepcionado com a decisão de seus amados pupilos e negou-se a aceitar essa decisão. Infelizmente, Ômega lhe explicou que sua recusa não mudaria o destino de Imix e no ano de 3038 e.A. a Guerra dos Oito Paraísos foi anunciada.
Achernar sabia que o extermínio da humanidade não era uma forma correta de ajudar na evolução das almas, ele defendia o processo do livre arbítrio e registro histórico, só sendo a favor de tirar a vida nos casos de desrespeito à lei divina. Agindo por estes princípios e por amor as pessoas que julgava serem inocentes, aceitou fazer uma coalizão com as lucíferas para conseguir força militar, assim, ao infringir a 2ª Lei Divina perdeu a divindade ao colaborar com seus conhecimentos e poder no desenvolvimento da nova geração de tecnologia Raigi. Enfim, Achernar virou mortal.
Tudo foi acordado entre as partes com três principais condições:
1ª todos os equipamentos e projetos seriam destruídos ao final da guerra;
2ª Achernar assumiria o título de Lúcifer e concordaria com a segregação da paradesha;
3ª o luciferanismo seria a religião mundial.
Graças aos conhecimentos ancestrais de Achernar, no ano de 3044 e.A., o poder bélico lucífero alcançou seu ápice e a guerra perdurou graças as novas armas e as poderosas barreiras energéticas produzidas pelas Raigi. As tropas lucíferas avançavam contra o prepotente e encurralado exército paradeshiano, que havia errado ao pensar que esmagaria a resistência mortal sem dificuldade. Milhares de humanos morreram e centenas de divindades ficaram inválidas ou foram feitas prisioneiras pelas RAs. Ômega percebeu que fracassaria, por ter sido prepotente e não ter imaginado que seu mestre decairia ao ponto de dar as ferramentas que permitiriam a humanidade conquistar e destruir qualquer coisa em seu caminho, então, no ano de 3059 e.A. pediu uma trégua e propôs uma negociação.
O encontro ocorreu na antiga e famosa floresta sagrada de Ganédem, onde as divindades vindas do Paraíso eram recebidas em Imix, nesta época se tornara uma savana semiárida formada pela batalha entre o acampamento paradeshiano e o exército lucífero. As negociações ocorreriam somente entre Ômega e Achernar mas para a surpresa da divindade havia mais um misterioso homem ao lado do antigo mestre que se declarava o atual Lúcifer. Ômega se sentiu extremamente infeliz ao ver Achernar, ele continuava a ser poderoso, mas sua aparência foi reduzia a de um idoso amargo e infeliz, um olhar consado e cheio de arrependimentos por ter sido forçado a fazer o que não desejava.
A negociação foi rápida, simples e devastadora. Ômega revelou aos dois oponentes que já havia dispersado mais da metade de suas tropas por todo o mundo, na hora Lúcifer sorriu sabendo que as divindades separadas matariam toda a população fora das nações lucíferas para logo depois serem esmagadas antes de retornarem a alguma formação militar. A conversa encerrou após Ômega declarar que as ordens dadas eram arrebatar a parte pura da humanidade e protege-la com todas as forças contra o efeito devastador da guerra que estava por vir. No final da declaração, sem deixar passar mais um segundo, Achernar assassinou Lúcifer ao dividí-lo em três, mostrando a seu antigo pupilo que finalmente chegaram a um acordo.
No meio de Ganédem a revolta teve início, Lúcifer jazia em três partes no chão, Achenar passou para Ômega todos os meios para penetrar as barreiras que protegiam os lucíferos, e juntos, lideraram o que restou do exército divino numa investida impiedosa contra o império dos Portadores da Luz.
Quando os exércitos do falecido Lúcifer perceberam, era muito tarde, as divindades cruzavam as barreiras Raigi sem dificuldade, em meses as tropas externas foram extintas, em quatro anos só sobraram cinco capitais lucíferas com seus líderes em choque pela rápida virada de jogo, foi quando aconteceu. No ano seguinte três capitais lucíferas lançaram quinze bombas que causaram o apocalipse em toda Imix. No exército paradeshiano os seres mais poderosos eram Ômega e Achernar, que deram tudo de si para proteger o maior número possível de companheiros das terríveis explosões, as outras divindades mais poderosas defenderam o que restaria da humanidade.
Ao final da última investida lucífera o mundo estava arrasado, Ômega estava esgotado e conseguiu salvar uma centena de divindades, Achernar faleceu ao consumir todo seu poder para defender outra centena de divindades junto com uma cidade humana inteira. Das cinco mil divindades que protegiam cinco mil cidades de humanos arrebatados, menos de trinta por cento resistiram, quatro das capitais lucíferas sucumbiram ao ataque suicida.
Com a vinda do apocalipse, a guerra parecia ter acabado, restava somente uma cidade lucífera em pé, a população mundial de Imix se resumia em torno de duas mil divindades conscientes e três milhões de humanos vivos, o planeta só continha destroços e uma atmosfera levemente tóxica que eliminava qualquer mortal em contato prolongado. O primeiro amanhecer em que o sol não aparecia, o primeiro dia com vinte e quatro horas de trevas marcava o ano de 3063 e o fim da Era de Achernar.
A O exército de Ômega possuía em torno de duzentas divindades, das quais a maioria se encontrava muito ferida. Ele estava esgotado e no limite de suas forças. Perplexo por nunca ter visto tamanha destruição, ele havia conjecturado em suas meditações que a guerra iria trazer grande devastação, nada do que ele imaginou se comparava com o que vivia, milhares de divindades despedaçadas, milhões de humanos mortos, o corpo de seu amado mestre em seus braços sem vida.
A vingança dos luciferas foi terrível e ainda por cima os pecadores continuavam em pé, a barreira Raigi da última cidade manteve aquele antro intocado, tudo era pó e trevas, menos a “Capital de Aço” de Pérgamo, última cidade lucífera, que iluminava com seu brilho púrpura a terra de Imix coberta por densas nuvens negras.
Ômega via a redoma mudar de cor, colorindo o cenário ao seu redor de purpura para vermelho, sentiu como se o inimigo o insultasse ao comemorar a vitória, não podia deixar sua missão inacabada, mesmo com seu corpo em trapos juntou seus irmãos e avançou contra a maldita cidade.
Uma rajada púrpura e dez divindades ao chão, o Canhão Raigi ainda funcionava. A investida contra a cúpula e um choque, as runas que permitiam atravessar a barreira não funcionavam mais. Outra rajada púrpura e mais cinco divindades ao chão. Entre gritos desesperados de recuar, Ômega tentava impedir os tiros de canhão enquanto via um massacre ocorrer ao seu redor. Outra rajada, tudo rodava, areia era tudo que Ômega via enquanto tentava entender porque não sentia suas pernas e braços. O chão se distanciava enquanto seu vice comandante o resgatava, via lá em baixo aqueles profanadores carregando os pedaços divinos de seus irmãos para dentro de uma RA, o que caia não era chuva e sim lágrimas.
Durante décadas tudo o que Ômega e seu exército podiam fazer era destruir a maioria das forças tarefas lucíferas que saiam e voltavam para Pérgamo. Se aproximar era sinônimo de virar bateria para as Raigi, invadir a barreira era impossível por sua forma esférica e contínua mudança de codificação. O Conselho Paradeshiano havia nomeado Ômega como novo governador de Imix e o ordenou, juntamente com seu exército, a manter patrulha contínua sobre a cidade de Pérgamo durante toda a eternidade se necessário. Nada mais justo pela falha deles e por serem os mais poderosos dessa galáxia. Muitas divindades amigas de Ômega viraram mortais, seja pelo peso da deserção, ou por enlouquecerem devido a impotência de não conseguirem destruir o inimigo.
No ano 50 e.O (era Ômega) a nova ordem mundial havia se estabelecido. Numa perfeita administração, o novo líder de Imix comandava uma força militar composta por mil divindades, das quais cem eram as mais poderosas do Sistema solar de Achernar, todas ajudando no cerco sobre a Capital de Aço. Governava mil e quinhentas cidades humanas espalhadas pelo mundo, todas protegidas por divindades contra o clima venenoso resultante da guerra. Supervisionava em torno de quatro mil divindades, das quais muitas eram voluntárias de outros planetas, para recuperar Imix de seu estado inóspito. Após dois séculos sobre os cuidados de Ômega e suas divindades, o planeta renasceu das cinzas, os campos tornaram a florescer, a vida marítima voltava a ser abundante, as antigas cidades sumiam entre jovens florestas e chegava a hora da humanidade receber sua segunda chance.
Todos se preocupavam com o estado abatido e cansado de Ômega, em duzentos anos nunca tinha tirado os pés do deserto de Akar ou seus olhos da cidade de Pérgamo. Apesar de ser a divindade mais forte da galáxia, suas meditações só chegavam a mesma fatídica resposta, “nem uma divindade em Erídano pode derrubar a barreira da Capital de Aço”.
No ano 300 e.O. as medidas para entregar Imix novamente a humanidade eram discutidas juntamente com uma nova organização mundial, Ômega estava enlouquecendo com a ideia de que as pessoas seriam ser corrompidas pela semente lucífera que existia em Akar. Por esse motivo convocou um Conselho Paradeshiano e pela primeira vez em séculos deixou o deserto para comparecer pessoalmente.
Houve um debate violento onde o líder de Imix requisitava um grande exército paradeshiano contra a Capital de Aço ao levar em conta que nos três últimos séculos a cidade não havia perdido nem um pouco de seu território, não havia encerrado suas expedições ou enfraquecido sua barreira. O Conselho se negou sobre a alegação de que sacrificar divindades em uma nova guerra só aumentaria o poder de Pérgamo, e que contido, o mal se destruiria por si só.
O veredito foi terrível, a paradesha não se envolveria novamente nos assuntos de Imix, que agora era um planeta embargado, Ômega não teria nem uma influência sobre divindades fora de seu comando atual, qualquer outro reforço não seria enviado, caso houvesse um sinal de que qualquer lucífero tinha poder de sair do planeta, toda a Paradesha iria se unir para aniquilar Imix.
“O mal se destruirá por si só”, junto com esta frase, a primeira noite estrelada em séculos no deserto fez surgir uma epifania em Ômega. A noite do ano de 301 e.O foi a última em que alguém viu a divindade governante de Imix.
Ano 302 e.O., o vice comandante mundial, Sigma, assume o governo de Imix. Seu primeiro decreto foi dar a todas divindade protetoras de cidades humanas total autonomia para governar seu povo ou lhe dar independência para juntar-se ao cerco de Akar. O governo de Sigma era fundamentado em deixar a humanidade seguir seu rumo, enquanto usava toda sua influência para eliminar as expedições lucíferas que tinham o objetivo trazer recursos e escravos para Pérgamo.
Ano 333 e.O., dês do desaparecimento de Ômega, aumentaram o número de expedições lucíferas bem-sucedidas, sem seu poder o cerco enfraqueceu drasticamente. Sigma pediu socorro a todas as divindades de Imix e muitas optaram por dar independência a suas cidades e partir para ajudar no cerco. A humanidade se multiplicava e se espalhava em grande velocidade, esta época ficou conhecida como “Expansão Errante”, os grupos de viajantes, exploradores e mercenários explodem pelo mundo, houve a criação de novas cidades e reinados.
Ano 401 e.O., Sigma continua a ter problemas em manter a eficiência do cerco, e recebe a inconveniente notícias de que as ruínas das antigas cidades, principal foco das expedições lucíferas, estavam sendo habitadas por monstros que atacavam e devoravam qualquer um. Foi uma época de difíceis escolhas, pois os monstros ficavam reclusos nas ruínas e acabavam com qualquer expedição lucífera que conseguia escapar ao cerco, evitando o uso de divindades para caçar os lucifêros. Sigma sabia que os monstros eram produto de feitiçaria, e pela 1ª Lei Divina devem ser eliminados, mas Pérgamo representava uma ameaça maior, portanto, priorizou a manutenção do cerco e destacou poucas divindades para a tarefa de formar discípulos humanos capazes de combater os monstros.
Ano 576 e.O., por dez anos a Capital de Aço não executa atividades externas a barreira, Sigma supôs que isso ocorrera por causa do aparecimento dos monstros que reduziram o retorno de suas expedições a zero. Imix se encontrava em uma era de transformações, a Paradesha sustentava o embargo com rigidez, a Humanidade continuava a crescer e era raríssimo o surgimento de uma nova divindade. Os monstros aumentavam seu número e força com uma organização que conquistou todas as ruinas do mundo, os mais poderosos não seguiam esse padrão e pareciam fugir de algo que não eram os grupos divinos de caça. Muitas divindades se apegaram a humanidade e eram comuns as histórias de imortais que se tornavam mortais. No mundo restavam em torno de seis mil divindades, separadas entre as que se dedicavam à humanidade e as que se dedicavam cerco de Akar. No cerco, as três mil divindades se revezavam numa contínua vigília de quinhentos guardiões, mas neste mesmo ano a ilusória paz de Sigma chegou ao fim.
Em uma noite estrelada, Sigma observava solitário a barreira de Pérgamo iluminando por quilômetros as areias do deserto, que refletia atualmente a cor verde. Havia um silêncio pacífico quando repentinamente sentiu uma cruel e pesada presença a poucos metros de suas costas, surgiu tão repentinamente que se perguntava como alguém tão experiente como ele deixou isso acontecer. Apesar do medo que lhe subiu a espinha, existia algo familiar naquela sensação, escutou uma saudação pronunciada por uma voz conhecida, era Ômega. Ele estava diferente, cheirava a carne velha e sangue coagulado, apesar da aparência ser a mesma de trezentos anos atrás, era possível sentir que em seu interior uma centena de almas sofredoras estavam aprisionadas, o discipulo mais forte de Achernar havia se tornado num monstro.
A conversa foi fria e demorada, Sigma sabia que as divindades guardiãs do cerco não estavam sentindo o enorme poder bem camuflado de Ômega. S0e manteve calmo, pois tinha a certeza de não ter qualquer chance contra seu antigo irmão, pacientemente aguardava seu destino.
Ômega pôs-se a contar o que fizera em quase três séculos, como a Paradesha lhe ensinou que somente o mal poderia destruir o mal, como converteu os conhecimentos que Achernar lhe ensinou em magia profana, como os primeiros humanos que transformou em monstros fugiram de seu controle, como a segunda geração de suas criações era perfeitamente controlável, como ela iria destruir a Capital de Aço de uma vez por todas e depois auto destruir-se. No final, a ordem de Ômega foi clara, abandone o cerco e não interfira na guerra.
A sensação que as divindades do cerco sentiram foi imediata, era como uma tempestade apocaliptica, a energia negativa vinda do Leste era imensa. Do horizonte, como uma manta feita de gigantescas formigas negras, monstros cobriam o brilho verde da areia e avançavam como uma seta na direção de Pérgamo. Sigma compreendia que a última linha de defesa contra o vencedor desta guerra seria seu exército, na esperança de que Ômega e os lucíferos se aniquilassem, ordenou a retirada, e a quilômetros as três mil e uma divindades observaram o inferno na terra.
Em pouco tempo o deserto caiu na escuridão, as aberrações cobriam totalmente a iluminação vinda da cúpula da Capital de Aço, uma linha púrpura surgiu da barreira em direção ao céu, mas não pareceu afetar as trevas que cobriam a cidade, um minuto depois outra tentativa do canhão Raigi de retalhar a coberta infernal, a poderosa arma parecia inútil perto da quantidade absurda de criaturas que cobriam Pérgamo. Ao longe, Sigma observava tudo, através de sua aura sentia cada alma condenada das milhões que golpeavam e arranhavam a barreira, sentia as dezenas que desencarnavam a cada tiro de canhão, sentia Ômega se aproximando da cúpula enquanto sugava o poder da centena de almas em seu âmago. Sigma percebeu o plano quando Ômega chegou na barreira, os lucíferos atiravam aleatoriamente com o canhão pois não podiam saber da existência de um líder no meio de tantas aberrações.
A guerra foi decidida com uma estratégia simples e poderosa, Ômega procurou uma posição totalmente oposta ao último tiro de canhão, já próximo a redoma protetora da cidade, se transformou num poderoso monstro de vinte metros de altura, que se pôs a abrir uma passagem na cúpula usando a força titânica de suas próprias mãos. Pela abertura dezenas de monstros invadiram a Capital de Aço por dois minutos, o tempo que o canhão demorou para ser reposicionado na direção contrária. Quando a rajada do Canhão Raigi atingiu o ponto de invasão, destruindo parte de sua própria cidade, a abertura não existia mais, Ômega estava do outro lado da cúpula abrindo novamente a barreira, e permitindo outra invasão por mais dois minutos. A cada tiro era uma parte da cidade e da muralha de Pérgamo que se destruia, e logo existiam mais monstros dentro da cúpula do que fora, o que trouxe a guerra para dentro da capital.
Licantropia, essa foi a carta na manga de Ômega, cada lucífero mordido era um soldado a menos para Pérgamo e um monstro a mais em seu exército. O deserto voltava a se iluminar, pois restavam poucas criaturas fora da barreira, as muralhas eram praticamente só escombros e não demorou para finalmente o canhão acertar o gigante capaz de abrir a barreira. Sigma sentiu dezenas de almas que estavam presas dentro de Ômega escaparem pelo enorme ferimento causado. Algo que Sigma temia estava acontecendo, Ômega, após ser gravemente ferido, partia em retirada.
A decisão foi rápida, duas mil e quinhentas divindades fariam um cerco e eliminariam o que restasse da guerra, as quinhentas mais poderosas acompanhariam Sigma na caçada pela cabeça de Ômega. O monstro, agora com cinco metros, se regenerava rapidamente e aumentava sua velocidade de fuga na mesma proporção. O sol nascia quando as divindades avistaram a besta correndo no deserto em direção as ruínas de uma grande cidade próxima, se a batalha ocorresse nas ruínas seria uma desvantagem para Sigma, ele e as únicas vinte e nove divindades com o poder necessário para se teletransportar e parar Ômega abandonam a formação e interceptaram seu alvo antes dele chegar as ruinas.
Antes mesmos das divindades terminarem o teletransporte, o gigante monstruoso agarrou duas divindades e esmagou outras duas com os corpos em suas mãos. Quatro divindades atacam suas pernas, e no mesmo momento Ômega saltou retalhando com suas garras outras duas e abocanhando uma terceira. A poderosa aberração controlou a mente de cinco divindades e fez elas atacarem outras cinco, Sigma e mais quatro conseguiram golpear o monstro causando algum dano. Cinco divindades tentaram mantê-lo no ar através de uma barreira telecinética, sem sucesso. A fera caiu ao chão, meio desengonçada pelos ferimentos, rolou na areia e ergueu-se rápidamente em disparada para as ruínas. As divindades, sendo ultrapassadas, sentiram um calafrio ao ouvir seu irmão abocanhado gritar desesperadamente em quanto Ômega absorvia sua alma.
Ao se distanciar, Ômega perdeu o controle mental que mantinha sobre as cinco divindades, que não podiam desistir ao escutar o sofrimento de uma alma sendo devorada, as vinte e quatro divindades restantes tentaram uma nova investida. Desta vez, se teletransportaram muito à frente da fera, preparando a resistência antes do encontro. O monstro se aproximava em uma velocidade estonteante enquanto cresciam espinhos em seu corpo, o novo plano era unidos criarem uma barreira telecinética capaz de selá-lo. Ômega percebeu a grande concentração de poder e resolveu contornar. A falta de sincronia das divindades não permitia que acertassem ao mesmo tempo o veloz alvo. Sigma resolveu tentar imobilizar Ômega e ordenou que os vinte e três se concentrassem em fazer o selo envolta da fera, mesmo que ele fosse selado junto.
Ômega estava próximo das ruínas, avançava pouco por ter que se esquivar dos ataques telecinéticos, Sigma partiu voando para cima da poderosa aberração, sabendo que não precisava segura-lo por muito tempo, pois mesmo que o selo fosse rompido o exército chegaria antes dele adentrar as ruínas. Com um potente encontrão, Sigma é empalado por seis longos espinhos ao levar o monstro para o chão, o tempo que Ômega levou para se erguer e agarrar Sigma foi suficiente para quatorze divindades acertarem seu ataque telecinético, a aberração vacilou enquanto se decidia entre acabar com Sigma ou tentar se libertar, o restante das divindades acertou o ataque e todas começam o processo de selamento.
Sigma sorria enquanto via a barreira envolta dele se fechar completamente. A besta, com um olhar de medo e frustração, põe-se a repetir com sua voz gutural – Eu tenho que proteger Imix, essa é minha Era... – e de repente pela boca começou a sugar as almas das vinte e três divindades pela barreira. Foi um cabo de guerra, onde sete divindades não resistiram contra força de Ômega. Sigma ficou horrorizado por ver um absurdo como aquele pela primeira vez, ele sabia o que estava por vir, dezesseis não selariam Ômega, quinhentos não matariam Ômega, a divindade que outra hora era seu irmão mais próximo havia se transformado em uma nova ameaça mundial, havia se transformado no novo Lúcifer.
O exército divino se aproximava cobrindo a luz do dia como uma nuvem de gafanhotos, todos viram a feição de felicidade do monstro e a de desespero de Sigma antes do final. Uma explosão colossal destruiu o selo, despedaçou Sigma e os quinze seladores, desfez a formação e feriu a maioria as divindades restantes, formou uma tempestade de areia que permitiu Ômega chegar as ruinas levando com sigo o que restava de Sigma. Das quinhentas divindades, nove almas foram perdidas, vinte e duas estavam despedaçadas, noventa e quatro eram incapazes de lutar, trezentas e setenta e seis estavam confusas e sem liderança. Temerosos que algo pior pudesse surgir daquelas ruinas, a missão foi declarada fracassada e a ordem de retirada foi dada.
Durante a batalha na Capital de Aço, a barreira Raigi foi comprometida, permitindo a invasão das divindades que exterminaram toda a população de Pérgamo junto com os monstros de Ômega. Durante cinco anos o cerco se manteve para aniquilar a cidade e assegurar que não existiria qualquer vestígio da cultura lucífera. No processo, milhares de almas foram soltas pela destruição dos aparelhos RA. No meio da cidade existia um túnel infestado de monstros, que sustentava a teoria de uma suposta fuga das lideranças de Pérgamo, mas nada foi provado ou confirmado. Em 582 e.O não restava nada em Akar além de vigas de aço e areia.
A aniquilação de Pérgamo marcou o fim do cerco a Capital de Aço e o nascimento do “Conselho de Imix”, uma organização nômade sempre composta pelas cem divindades mais poderosas do planeta, criada sem a intenção de atuar como liderança mundial e sim com o único objetivo de extinguir todos os monstros em Imix. A realidade era que a Paradesha manteria o isolamento de Imix enquanto existissem monstros, e para isso, eles estipularam cinco diretrizes que visavam educar mortais e divindades contra os monstros e tecnologias Raigi, como se fossem um único inimigo:
1ª A aberração mais poderosa sempre carregará o título de Lúcifer.
2ª A prioridade é localizar e informar o paradeiro de Lúcifer.
3ª Ações ou ataques contra Lúcifer só ocorreriam junto a no mínimo cinquenta representantes do Conselho.
4ª Toda e qualquer informação sobre rituais ou técnicas profanas devem ser transmitidas sem produzir registros.
5ª Como medida preventiva, qualquer divindade do Conselho que se tornar mortal deve renunciar a sua vida.
Ômega, a partir da criação do Conselho de Imix, foi nomeado o novo Lúcifer. A caçada a sua cabeça foi intensa e sem descanso, e a cada batalha mais fraco ele se tornava. Uma série de derrotas e perdas de almas forçou Lúcifer a levar uma vida fugitiva e furtiva. A cada ano Ômega perdia sua influência sobre os outros monstros e sua verdadeira história caia no esquecimento.
Após cento e vinte e três anos sem liderança mundial, Imix se tornou um mundo desunido e selvagem, onde a lei do mais forte predominava. Muitas divindades perderam a imortalidade em busca de vingança pelas barbaridades que ocorriam neste tempo sem lei.
O número de divindades por todo planeta não passava de cinco mil, das quais, mais de quatro quintos eram donas de poucos poderes e se dedicavam a paz e a reestruturação da sociedade. Dês do fim da Era de Achernar, os humanos foram incentivadas a ter aversão a tecnologia e sobreviver do que a natureza proporciona, e após a Expansão Errante, foi difundida uma cultura manufatureira que tratava as relíquias do mundo antigo como objetos profanos. O mundo foi se moldando através de vilas e feudos, barracos e castelos, agricultores e fazendeiros, lenhadores e ferreiros, monges solitários que buscavam a ascensão divina e grupos de guerreiros que dominavam pela tirania, muitas novas religiões e poucos fiéis pregando a verdade numa terra onde o que predominava era o medo.
Ano 700 e.O. (era Ômega), a humanidade se encontra em uma época precária, sem máquinas ou computadores, a humanidade é sustentada pelos vegetais que colhe, pela carne que caça ou pesca, e pelos utensílios que faz artesanalmente. Devido aos monstros que surgiram, e dominaram todo o mundo, só é possível sobreviver e prosperar de três maneiras, sendo Puritano nas Cidades-Édens protegidas pelo campo mágico de uma divindade; tornando-se Cidadão nos Reinados mantidos com grossas muralhas e grande força militar; ou se arriscando como Mercenário em grupos nômades famosos por sua habilidade de lutar contra as mais terríveis aberrações e bestas selvagens.
Guerras e centenas de religiões existentes separam culturalmente os mortais. Frequentemente monstros poderosos são cultuados como deuses pagãos, que governam as civilizações mais selvagens. As instituições detentoras dos ensinamentos mais verídicos sobre a antiguidade, e o método para alcançar a divina ascensão, foram reduzidas a instituições longínquas chamadas Monastérios Paradeshianos, que acolhem com afeto todos os que vêm em busca da verdade.
As grandes nações, se renderam a duas principais religiões, a igreja Omegata ensina o povo a conservar um comportamento submisso e subserviente perante as divindades e governantes escolhidos por elas. Já, a popular Archenita, doutrina as massas a condenar outras religiões e divindades através das rigorosas leis e interpretações do Livro Sagrado de Archenar.
2020-12-10 gam_rpg©