A Flor de Narkalys
Por Alexandre Costa Kawakubo (2021-12-21)
Descoberta em Héspera, nas poucas regiões onde há abundância de água do continente, a famosa Flor de Narkalys se espalhou rapidamente pelo mundo.
No início, por suas propriedades anestésicas perfeitas para a medicina, foi amplamente cultivada e comercializada em outros continentes através de investimentos de boticários e doutores, porém, após a difusão e frequência de seu uso, suas outras características e efeitos colaterais foram descobertas e utilizadas para lucros ilícitos.
Os efeitos desejados da Narkalys são, analgesia com supressão da dor em aplicação local, sedação por longos períodos através da ingestão, e, se usada por essências aromáticas, incensos ou fumo, suprimir tosse, causar relaxamento muscular, redução da ansiedade e rapidez no sono profundo.
Mas o consumo diário por mais de três meses provoca no usuário uma resistência ao efeito sedativo, e quando a pessoa não perde a consciência durante o uso, seus efeitos secundários entram em ação, trazendo: euforia intensa, diminuição da visão pela contração da pupila, admiração e fixação por pequenas ações, alegria sem sentido, êxtase, calor, ligeira e prazerosa sufocação, apesar da dormência no corpo causa excitação através da sensibilidade dos lábios, mamilos e órgãos sexuais, pequenas e divertidas alucinações, e por fim, dependência extrema.
A dependência é amplificada pelos efeitos colaterais que o usuário adquiri quando não está embriagado pela Narkalys, é normal que a pessoa sinta vontade constante de tossir, enjoo frequente, falta de fome, coceira nos ouvidos e nariz com aumento de secreção, rigidez muscular com tremedeiras, alta ansiedade, sono acompanhado de pesadelos, e em casos de vício avançado, alucinações psicóticas e danos nos rins.
A super dosagem causa morte por insuficiência respiratória pelo relaxamento do diafragma e coração ou falência renal.
Com a popularização da Narkalys, que ficou conhecida como Essência do Deus Narkalys ou "ÉDEN", muitas poções afrodisíacas, essências para velas decorativas e narguilé, fumos e cremes foram produzidos em grande escala, vagarosamente alcançando altos preços. Esse comércio intenso e lucrativo enriqueceu muitas pessoas, mas gerou um número descontrolado de dependentes, principalmente nas capitais, onde havia mais pessoas com dinheiro para adquirir com frequência essas mercadorias exclusivas.
Com o aumento estonteante dos dependentes, e a queda dos principais líderes e burgueses devido ao vício, a taxa de criminalidade, violência e desemprego assolou as principais cidades do mundo. Centenas de vilas e dezenas de feudos se tornaram ruínas ou antro de ladrões, criminosos, mendigos e drogados, estigmatizando o Éden como a praga das capitais.
Rapidamente o plantio e a venda de Narkalys foi proibida pelos governos e impérios. Porém, sua venda no mercado negro gerou poderosas máfias contrabandistas e organizações criminosas com poder de milícia, que mais tarde, se tornou uma maneira obscura de regular e controlar a venda e o consumo da droga pelas cidades.
A história popular sobre o surgimento da Narkalys foi criada posteriormente ao seu cultivo, para propaganda das poções.
"A lenda conta que o deus da beleza e das comemorações, Nárke, que era admirado e cobiçado por quase todas as deusas e mulheres, havia sido desdenhado diversas vezes pela deusa da morte, Kalys.
Com sua vaidade e orgulho feridos, Nárke planejou possuir Kalys ao impressioná-la com seu maior segredo, a poção do éden.
Ao convidá-la para seu oásis secreto, serviu e compartilhou sua deliciosa bebida, e Kalys, após ser intoxicada pela beleza e sensações únicas da essência servida, se entregou alegremente a Nárke por sete dias e sete noites.
No êxtase e no auge da euforia de suas relações, embriagados e cobertos pela divina poção, Nárke e Kalys derramaram a bebida que envolvia seus corpos nas areias dos oásis, que ao cair na terra deu origem a uma flor repleta da essência do éden e do poder divino de ambos, de modo que ficou bela, carnuda e saborosa, de aroma irresistível, e esse jardim secreto passou a ser o presente do deus das festas para a deusa da morte.
Kalys, que ficou enfurecida por se deixar levar pelo presente, espalhou a flor que continha o segredo de Nárke em todos os oásis de Héspera, compartilhando a poção maravilhosa com todos os seres comuns através da Flor de Narkalys."
Esse conto, obrigatório para todo boticário, foi rapidamente popularizado e difundido por toda cultura da época, encontrado em diversos livros e até em alguns pergaminhos religiosos. Mas a história mais antiga sobre a Narkalys ainda pode ser ouvida pelos povos nômades de Héspera.
"Após a reconstrução do mundo pelas divindades, os primeiros humanos a saírem das Cidades Edens de Héspera, priorizaram achar fontes de água e a confecção de mapas que mostravam a localização delas.
Muitas expedições foram feitas, e muitos morreram ao consumir as flores que cresciam nos oásis, por esses causos, foi dado o nome de Kalis para a flor, em homenagem à deusa da morte.
Muitos anos se passaram, e estudiosos sabiam que os povos antigos chamavam a variedade de substâncias que fazem adormecer, reduzem ou eliminam a sensibilidade, ou causam alteração do estado de consciência devido à intoxicação, eram chamadas narcóticos. Ao perceberem ser possível utilizar o extrato das pétalas da Kalis para causar esses efeitos de modo não mortal, eles batizaram a nova medicina de Narcótico de Kalys, ou Narkalys, como mais tarde a flor ficou conhecida por todo mundo."
Hoje, com a proibição da Kalys na maioria dos continentes, somente em Héspera esse remédio ainda é usado licitamente, mas não é comercializado devido a sua cultura rígida e singular, que permite que o narcótico seja usado com parcimônia e somente para fins terapêuticos ou ritualísticos.
2020-12-10 gam_rpg©